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Depressão: como podemos prevenir e tratar

mulher com depressão

Os dias são todos iguais e o cansaço impede de sair da cama, até a higiene pessoal exige tanto esforço que mais vale não a fazer. Isto é um vislumbre de um dia na vida de uma pessoa deprimida.

A depressão é um transtorno de tristeza e desalento suficientemente intenso, que pode afetar o desempenho das funções normais do dia a dia e retirar todo o prazer nas atividades ou o interesse pela vida.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) cerca de 450 milhões de pessoas no mundo sofrem de perturbações da vida mental, o que equivale a cerca de 5% da população.

A depressão grave é, hoje em dia, a principal causa de incapacitação em todo o mundo. Estima-se que até 2030 se tornará na segunda das principais causas de doença no mundo, afetando 1 em cada 15 adultos, em qualquer ano, e uma em cada 6 pessoas terá uma depressão a qualquer altura da vida, afetando mais as mulheres do que os homens. Um terço das mulheres vive um grave episódio depressivo durante a sua vida.

De acordo com dados da Direção Geral de Saúde, Portugal é o país da Europa com o nível de depressão mais elevado e o segundo no mundo, sendo ultrapassado apenas pelos Estados Unidos da América.

Na população portuguesa, 23% dos indivíduos sofre de algum problema de saúde mental com 400 mil portugueses a serem diagnosticados com depressão por ano.  Estima-se que 1 em cada 4 mulheres e 1 em cada 10 homens possam ter episódios depressivos em alguma fase da vida.

Em 2017 foram prescritos em Portugal, 20 milhões de embalagens de psicofármacos e foram gastos 600 mil euros em medicamentos diariamente.

A depressão é considerada a principal causa de incapacidade e a segunda causa de redução de anos de vida saudável. Afeta significativamente a produtividade na vida profissional, a vida familiar ou escolar e todas as atividades quotidianas, com grande impacto na vida do doente.

Saiba mais detalhes sobre esta doença e como pode ser prevenida e tratada, com a informação que reunimos para si neste guia.

O que é a depressão?

O que é depressão

A depressão é um estado clínico que se carateriza por estados de tristeza profunda generalizada, pela perda de interesse nas atividades do dia a dia, ou interesse em atividades que antes eram consideradas normais e aliciantes.

Esta perturbação do humor tem um grande impacto no desempenho das atividades, na vivência funcional e é considerada uma doença psiquiátrica crónica.

Que tipos de depressão existem?

Tipos de depressão

As perturbações depressivas podem ser categorizadas em duas grandes áreas:

Perturbação depressiva maior ou episódio depressivo: caracteriza-se pela perda de energia,  de interesse e tristeza pronunciada. De acordo com o número de sintomas e a sua gravidade, o episódio depressivo pode ser considerado ligeiro, moderado ou grave.

Distimia: situação mais ligeira com sintomas menos intensos, mas mais prolongados. É considerada uma depressão ligeira crónica ou persistente.

Podemos distinguir vários tipos de estados depressivos:

Depressão Clássica

Aqui encontramos os sintomas clássicos que mais frequentemente são associados à depressão como a tristeza profunda, o desânimo, pensamentos negativos, falta de interesse pela vida em geral, alterações de apetite e distúrbios do sono, falta de energia, sensação de inutilidade e pensamentos suicidas.

Transtorno Depressivo Persistente

Característico da distimia, este transtorno é menos intenso que o anterior, mas tem uma duração mais longa que pode ir até os dois anos. Embora consigam realizar as atividades normais do seu dia a dia, os indivíduos com este transtorno sentem-se normalmente fatigados e com pouca energia.

Podem apresentar também alterações do peso ou de apetite e baixa autoestima associada a uma generalizada falta de esperança na vida.

Transtorno Disruptivo de Desregulação do Humor

Mais comum nas crianças ou adolescentes, este transtorno carateriza-se por explosões de temperamento ou humor que são intensas e recorrentes. Podem ocorrer várias vezes por semana durante um período de um ou mais anos.

Transtorno afetivo sazonal

Este estado ocorre apenas durante as estações do ano mais frias, outono e inverno. São estações caracterizadas por dias mais curtos e menor exposição à luz solar.

As alterações de humor resultam das mudanças dos ritmos diários naturais para o ajustamento à nova estação, da sensibilidade à luz e também, de alterações no funcionamento de substâncias químicas relacionadas com a adaptação às diferenças de luz solar, como a serotonina e a melatonina.

Depressão pós-parto

Este transtorno ocorre em algumas mulheres durante a gravidez, ou no ano a seguir ao parto e inclui sintomas da depressão clássica e do transtorno persistente, que podem ter um grande impacto na saúde da mulher e do bebé.

Transtorno disfórico pré-menstrual

Alterações do humor ocorrem antes do período menstrual e desaparecem após o seu término. Os sintomas incluem choro, irritação, cansaço, falta de energia e desânimo.

Transtorno bipolar

Os estados depressivos fazem parte da doença bipolar que se carateriza por alternar entre, estados eufóricos ou maníacos, com muita atividade e grande dispêndio de energia e estados depressivos profundos, com falta de energia e muita tristeza.

Depressão psicótica

Algumas pessoas com depressão profunda podem ter episódios psicóticos como alucinações, delírios de doença ou pobreza e crenças falsas.

Depressão atípica

Na depressão atípica os indivíduos não vivenciam tristeza extrema, mas padecem de uma grande melancolia acompanhada de apatia, excesso de sono, cansaço e pensamentos negativos.

Há ainda a salientar os quadros depressivos específicos como a depressão na menopausa, na adolescência e na infância, que apresentam sintomas semelhantes aos outros transtornos, mas há aqui uma preponderância da irritabilidade.

Podem acontecer também episódios depressivos isolados, que em regra não duram mais de 6 meses e têm sintomas mais leves, que incluem a falta de energia, falta de iniciativa, alterações do sono e do apetite e uma maior lentidão de movimentos motores.

Qual a diferença entre tristeza, doença bipolar e depressão?

Diferença entre tristeza e depressão

A tristeza é uma emoção normal em reação a acontecimentos mais difíceis ou desagradáveis, mas que passa relativamente depressa.

A doença bipolar ou transtorno maníaco-depressivo carateriza-se por alterações de humor drásticas e muito intensas, constituídas por episódios maníacos, em que os indivíduos se sentem extremamente felizes, energizados e super ativos, em alternância com episódios depressivos, em que a tristeza profunda e a falta de energia são a tónica dominante.

A depressão é uma patologia que interfere com as atividades do dia a dia, tem associado um sofrimento profundo e perdura no tempo.

Depressão: Causas e fatores de risco

Causas e fatores de risco da depressão

A depressão pode afetar qualquer pessoa, em qualquer altura, mesmo quando a pessoa parece viver uma vida sem problemas e com sucesso.

Vários fatores podem contribuir para o desencadear de um estado depressivo, é a combinação de fatores genéticos, ambientais e psicológicos que criam as condições para o aparecimento da depressão.

 As causas mais importantes podem distribuir-se desta forma:

  •  Bioquímica: alterações ou diferenças químicas no cérebro podem contribuir para o desenvolvimento da doença.
  •  Genética: fatores hereditários e familiares potenciam o aparecimento da doença.
  • Personalidade: pessoas com baixa auto-estima, que facilmente se deixam influenciar pelo stress ou têm tendência para o pessimismo, têm maior probabilidade de desenvolver a doença.
  • Fatores ambientais: uma exposição contínua a violência, negligência, abuso ou pobreza tornam as pessoas mais vulneráveis à depressão.

Os fatores de risco também são muito variados e podem ser encontrados em diferentes áreas da vida:

  • Abuso físico, sexual, emocional
  • Medicamentos como os corticóides podem aumentar o risco
  • Conflitos pessoais ou no trabalho
  • Morte ou perda de alguém próximo
  • Eventos negativos ou positivos de grande amplitude e com grande impacto na vida quotidiana como o desemprego ou divórcio
  • Problemas pessoais como a exclusão social
  • Doenças graves como o cancro ou outras
  • Consumo em excesso de substâncias ilícitas ou nocivas como álcool e drogas

Sinais e sintomas da depressão

Sinais e sintomas da depressão

A depressão pode ser uma doença silenciosa, que passa despercebida porque alguns dos seus sintomas podem ser atribuídos a outras causas, como o stress ou outra doença e pode surgir mesmo quando não existem acontecimentos dolorosos ou traumáticos.

Noutras situações a depressão pode ser ligeira e permite a atividade funcional do dia a dia, mas existem outros sintomas como a fadiga, o desinteresse e a tristeza que se prolongam por muito tempo.

Em algumas circunstâncias a depressão nem apresenta indícios psicológicos como a tristeza ou a apatia, mas exibe sintomas físicos muito variados como náuseas, insónias, dores generalizadas, fadiga e opressão no peito o que pode levar a um diagnóstico errado e a ser confundida com outra doença.

Os sintomas têm que durar pelo menos duas semanas para serem considerados num diagnóstico de depressão.

Algumas doenças como problemas de tiróide, cancro cerebral ou deficiência vitamínica podem imitar os sintomas da depressão. Por isso, é importante que o diagnóstico seja feito por um médico e outras doenças possam ser despistadas.

Os sintomas da depressão podem variar no grau de severidade e podem incluir:

  • Tristeza e aborrecimento
  • Irritabilidade, tensão e agitação
  • Insónias ou dormir de mais
  • Sensação de insegurança, receios infundados, preocupações
  • Sentimentos de culpa e de inutilidade
  • Diminuição do nível de energia, apatia e lentidão
  • Perturbação do desejo sexual
  • Perda de interesse ou de prazer com atividades do dia a dia
  • Perda ou ganho de peso sem causa aparente
  • Fadiga extrema
  • Aumento de atividade física sem propósito como torcer as mãos ou agitação corporal
  • Lentidão do discurso e dos gestos
  • Dificuldade para tomar decisões ou de concentração
  • Alterações de memória, raciocínio e concentração
  • Pensamentos suicidas ou sobre a morte

Como diagnosticar a depressão?

Diagnóstico da depressão

Dado que alguns sintomas da depressão podem ser atribuídos a outras doenças, é de extrema importância que o diagnóstico seja feito por um médico especializado em psiquiatria ou por um psicólogo.

Na avaliação que o médico faz, algumas perguntas de rastreio são feitas para chegar a um diagnóstico mais preciso, estas perguntas incluem:

  • História familiar de depressão
  • A existência de outras doenças concomitantes
  • Existência ou não de dor crónica
  • Existência de sintomas sem causa definida

Exames complementares como análises ao sangue podem ser requisitados para excluir a existência de outras doenças.

O médico especialista irá ainda realizar testes de rastreamento que incluem critérios sintomáticos e questionários. Para ajudar a diferenciar um quadro de depressão de uma situação decorrente de um episódio ou evento de luto, ou de tristeza ocasional, o médico verifica se os sintomas apresentados correspondem a um estado de tristeza e angústia profundas e se impactam negativamente a atividade normal do paciente.

O diagnóstico pode ser complementado com exames neurológicos.

Tratamento da depressão

Tratamento da depressão

A estratégia de tratamento para a depressão consiste na articulação entre a psicoterapia e os medicamentos antidepressivos. O objetivo da terapia é reduzir os sintomas e prevenir a reincidência.

Desta forma, o tratamento da depressão pode incluir:

Medicamentos

Os medicamentos são eficazes em todos os graus de gravidade da doença e a fase aguda requer 6 a 8 semanas de medicação, ao qual se seguem pelo menos 6 meses de tratamento contínuo, para evitar uma recorrência.

Existem mais de 30 medicamentos para a depressão e, ao contrário da crença popular, não causam vício. No entanto, deverão ser sempre tomados à risca de acordo com o conselho médico, para evitar possíveis efeitos secundários ou evitar recaídas.

Psicoterapia

Estudos científicos indicaram que várias formas de psicoterapia com duração limitada são tão eficazes com os fármacos, nas depressões ligeiras ou moderadas.  As terapias mais utilizadas são a psicoterapia comportamental cognitiva e a psicoterapia interpessoal, com acentuado ênfase na educação e colaboração ativa do doente.

A terapia pode ajudar o paciente a gerir melhor as suas emoções e a entender os eventos ou fatores que levaram ao seu estado.

Exercício físico

A prática regular de exercícios aeróbicos foi identificada por um estudo da Universidade do Texas, como uma boa estratégia para reduzir substancialmente os sintomas da depressão. No estudo, um grupo que realizou estes exercícios 5 vezes por semana, conseguiu reduzir os sintomas em 47% após 3 meses de prática consistente.

Apesar da disponibilidade de tratamentos, apenas uma pequena minoria de pessoas com depressão recorre ao tratamento ou tem acesso a ele. Uma das razões diz respeito aos próprios sintomas, porque a baixa autoestima, os sentimentos de culpa e a falta de energia ou motivação, são uma barreira para os doentes procurarem ajuda.

Outros fatores inibidores são as dificuldades financeiras e o estigma social associados à doença. Assim, o suporte familiar e social dos doentes é um complemento essencial ao tratamento do doente.

Terapia ocupacional

A terapia ocupacional é muito importante no tratamento de pessoas que sofrem de depressão porque ajuda a recuperar a sua funcionalidade na realização das atividades de vida diárias e na retoma da sua atividade profissional.

Depressão tem cura?

Depressão tem cura

Dado que a depressão é uma doença que pode aparecer em qualquer altura e em qualquer circunstância, não se pode dizer que há uma cura para ela.

Estudos indicam que quem já sofreu de depressão tem uma maior probabilidade de a voltar a ter, por isso, já ter passado por uma depressão não é garantia contra a reincidência.

Mas também há a possibilidade de ultrapassar a doença e não voltar a experienciá-la. É importante ter acompanhamento médico frequente e ir  mantendo a vigilância sobre os próprios pensamentos e emoções para prevenir o seu desenvolvimento.

Com o aparecimento de novos tratamentos e um acompanhamento psicoterapêutico, é possível fazer uma boa gestão dos estados de humor e controlar a doença, permitindo uma experiência de vida mais funcional e apta.

Quais as complicações da depressão?

Complicações da depressão

A depressão é uma doença crónica que tende a existir por ciclos de ocorrência, alternados com períodos de melhoria de sintomas. Mais de 50% das pessoas que tiveram depressão em algum momento das suas vidas irão ter uma recorrência.

Devido a estas caraterísticas, a depressão pode ter muitos efeitos colaterais com naturezas diversas:

  • Maior risco de suicídio
  • Impacto considerável na saúde física que pode contribuir para a redução do tempo de vida
  • Aumento da ocorrência e gravidade de problemas cardíacos
  • Aumento da probabilidade de desenvolver obesidade
  • Declínio cognitivo
  • Aumento da sensibilidade à dor
  • Impacto na vida do dia a dia e nos relacionamentos
  • Aumento do risco de desemprego e pobreza
  • Abuso de substâncias nocivas como o álcool e o tabaco
  • Maior probabilidade de desenvolvimento de infeções
  • Maior probabilidade de ocorrência de AVC

Afinal a depressão pode ser prevenida?

A depressão pode ser prevenida

Prevenir a depressão não é algo que se possa fazer, já que esta doença pode aparecer em qualquer altura e em qualquer circunstância. No entanto, existem algumas medidas que podem ajudar a manter a saúde mental e a diminuir o impacto de um estado depressivo, caso este surja.

Estes são alguns dos cuidados que podem ajudar:

  • Prática de exercício físico regular
  • Adoção de técnicas de relaxamento como o yoga ou a meditação
  • Adoção de técnicas de regulação das emoções
  • Adoção de comportamentos e atividades para fortalecer a autoestima
  • Prática de estratégias para gerir o stress
  • Adoção de alimentação saudável e rotinas de sono
  • Desenvolver bons relacionamentos e um bom sistema de apoio da família ou amigos
  • Fazer consultas médicas de rotina para verificar o estado de saúde geral
  • Realizar atividades de lazer
  • Manter uma boa hidratação
  • Procurar ajuda se sentir alguns dos sintomas de depressão para evitar o seu agravamento.

Conclusão

Depressão nos idosos

Vários estudos científicos suportam a ideia de que a saúde física e a saúde mental se influenciam mutuamente. Os estados depressivos desencadeiam uma série de mudanças nefastas no funcionamento endócrino e imunitário das pessoas, abrindo a porta para a possibilidade do desenvolvimento de doenças físicas.

O comportamento, no que respeita aos cuidados de saúde, também depende muito da saúde mental dos indivíduos.  Os fatores psicológicos de cada um, influenciam o desenvolvimento ou não de perturbações mentais. As relações familiares e a relação da criança com os seus cuidadores, podem fazer a diferença no desenvolvimento de perturbações do comportamento nas crianças.

Os fatores sociais como as condições de vida e a pobreza, têm um impacto enorme sobre o desenvolvimento de perturbações do comportamento e da depressão. Quem vive em condições de pobreza tem mais probabilidade de desenvolver depressão e praticar o abuso de substâncias, com a agravante de terem também menos recursos e reduzido acesso a cuidados de saúde mentais e físicos.

As perturbações de saúde mental têm um considerável impacto económico direto e indireto, inclusive podem influenciar os custos dos serviços, para além de todo o impacto negativo que têm na qualidade de vida dos indivíduos e das famílias.

Neste sentido, é fundamental garantir diagnósticos precisos, a intervenção precoce, o uso racional de técnicas de tratamento e a possibilidade da existência de continuidade de tratamento para prevenir reincidências.

A depressão tem um efeito devastador sobre a vida das pessoas, incapacitando para uma vida funcional e causando grande sofrimento aos indivíduos.

A participação dos doentes, o envolvimento das famílias e da comunidade local, em conjunto com uma articulação equilibrada entre medicação, psicoterapia e reabilitação psicossocial, são os pilares fundamentais para a luta contra a depressão.

Comportamentos preventivos como uma alimentação cuidada e exercício físico regular, podem fazer toda a diferença no nível de intensidade dos sintomas da depressão.

Referências: 

*Atenção: O Blog Mais que Cuidar é um espaço informativo, de divulgação e educação sobre temas relacionados com saúde e bem-estar, não devendo ser utilizado como substituto ao diagnóstico médico ou tratamento sem antes consultar um profissional de saúde.

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